Memórias Paroquiais de 1758
Um aviso de 18 de Janeiro de 1758 do Secretário de Estado dos Negócios do Reino, Sebastião José de Carvalho e Melo, fazia remeter, através dos principais prelados, e para todos os párocos do reino, os interrogatórios sobre as paróquias e povoações, certamente para fazer um levantamento para saber qual o estado do país, após o terramoto de 1755, que destruiu a capital lisboeta.
As respostas terão sido remetidas à Secretaria de Estado dos Negócios do Reino e terão sido levadas para a Casa de Nossa Senhora das Necessidades, em Lisboa, da Congregação do Oratório, para serem trabalhadas pelo Padre Luís Cardoso (?-1769), encontrando-se hoje em dia no arquivo da Torre do Tombo, em Lisboa.
Esta colecção (de 41 volumes, nos quais os vários tomos são intitulados de "Dicionário Geográfico de Portugal", e organizada alfabeticamente) é constituída pelas respostas elaboradas pelos párocos ao interrogatório, através do qual se pretendia obter informações sobre as paróquias, abrangendo a totalidade do território continental português. Apesar de a exaustividade das respostas não ser constante, apresentam-se, na generalidade, de forma sequencial aos pontos do interrogatório (que está dividido em três partes relativas à localidade em si, à serra, e ao rio) fornecendo dados de carácter geográfico (localização, relevo, distâncias), administrativo (comarca, concelho, dimensão, e confrontações), e demográfico (número de habitantes), sendo possível obter informações sobre a estrutura eclesiástica e vivência religiosa (orago, benefícios, conventos, igrejas, ermidas, imagens milagrosas, romarias), a assistência social (hospitais, misericórdias, irmandades), as principais actividades económicas (agrícola, mineira, pecuária, feira), a organização judicial (comarca, juiz), as comunicações existentes (correio, pontes, portos marítimos e fluviais), a estrutura defensiva (fortificações, castelos ou torres), os recursos hídricos (rios, lagoas, fontes), outras informações consideradas assinaláveis (pessoas ilustres, privilégios, antiguidades), e quais os danos provocados pelo terramoto de 1 de Novembro de 1755.
Os volumes 42 e 43 contém apontamentos sobre múltiplas freguesias, elaborados pela mesma pessoa, provavelmente o Padre Luís Cardoso, incluindo algumas respostas originais de párocos, datadas de 1722, 1730 e 1732, e que deverão corresponder a um inquérito anterior ao de 1758. O volume 44 serve de índice à documentação, tendo este último sido elaborado ou concluído no ano de 1832, data que apresenta.
Neste inquérito responderam-se às seguintes questões, englobadas em 3 categorias: informação sobre a terra, serra e rio.
Parte I: O que se procura saber da terra
- Em que província fica, que bispado, comarca, termo e freguesia pertence?
- Se é d'el-rei, ou de donatário, e quem o é ao presente?
- Quantos vizinhos tem e o número das pessoas?
- Se está situada em campina, vale, ou monte, e que povoações se descobrem dela, e quanto dista?
- Se tem termo seu, que lugares ou aldeias compreende, como se chamam, e quantos vizinhos tem?
- Se a paróquia está fora do lugar, ou dentro dele, e quantos lugares, ou aldeias tem a freguesia, todos pelos seus nomes?
- Qual é o orago, quantos altares tem, e de que santos, quantas naves tem; se tem irmandades, quantas, e de que santos?
- Se o Pároco é cura, vigário, ou reitor, ou prior, ou abade, e de que apresentação é, e que renda tem?
- Se tem beneficiados, quantos, e que renda tem, e quem os apresenta?
- Se tem conventos, e de que religiosos, ou religiosas, e quem são os seus padroeiros?
- Se tem hospital, quem o administra, e que renda tem?
- Se tem casa de Misericórdia, e qual foi a sua origem, e que renda tem; e o que houver notável em qualquer destas cousas?
- Se tem ermidas, e de que santos, e se estão dentro, ou fora do lugar, e a quem pertencem?
- Se acode a eles romagem, sempre, ou em alguns dias do ano, e quais são estes?
- Quais são os frutos da terra que os moradores recolhem em maior abundância?
- Se tem juiz ordinário, etc., câmara, ou se está sujeita ao governo das justiças de outra terra, e qual é esta?
- Se é couto, cabeça de concelho, honra, ou beetria?
- Se há memória de que florescessem, ou dela saíssem, alguns homens insignes por virtudes, letras, ou armas?
- Se tem feira, e em que dias, e quantos dura, se é franca ou cativa?
- Se tem correio, e em que dias da semana chega e parte; e, se o não tem, de que correio se serve, e quanto dista a terra onde ele chega?
- Quanto dista da cidade capital do bispado, e quanto de Lisboa, capital do reino? Se tem algum privilégio, antiguidades, ou outras cousas dignas de memória?
- Se há na terra, ou perto dela alguma fonte, ou lagoa célebre, e se as suas águas tem alguma especial qualidade?
- Se for porto de mar, descreva-se o sítio que tem por arte ou por natureza, as embarcações que o frequentam e que pode admitir?
- Se a terra for murada, diga-se a qualidade de seus muros; se for praça de armas, descreva-se a sua fortificação.
- Se há nela, ou no seu distrito algum castelo, ou torre antiga, e em que estado se acha ao presente?
- Se padeceu alguma ruína no terramoto de 1755, e em quê, e se está reparado?
- E tudo o mais que houver digno de memória, de que não faça menção o presente interrogatório?
- Como se chama?
- Quantas léguas tem de comprimento, e quantas de largura; onde principia, e onde acaba?
- Os nome dos principais braços dela?
- Que rios nascem dentro do seu sítio, e algumas propriedade mais notáveis deles; as partes para onde correm, e onde fenecem?
- Que vilas e lugares estão assim na serra, como ao longo dela?
- Se há no seu distrito algumas fontes de propriedades raras?
- Se há na serra minas de metais, ou canteiras de pedra, ou de outros materiais de estimação?
- De que plantas, ou ervas medicinais é a serra povoada, e se se cultiva em algumas partes, e de que géneros de frutos é mais abundante?
- Se há na serra alguns mosteiros, igrejas de romagem, ou imagens milagrosas?
- A qualidade do seu temperamento?
- Se há nela criações de gados, ou de outros animais, ou caça?
- Se tem alguma lagoa, ou fojos notáveis?
- E tudo o mais que houver digno de memória?
Parte III: O que se procura saber do rio
- Como se chama, assim o rio, como o sítio onde nasce?
- Se nasce logo caudaloso, e se corre todo o ano?
- Que outros rios entram nele, e em que sítio?
- Se é navegável, e de que embarcações é capaz?
- Se é de curso arrebatado, ou quieto, em toda a sua distância, ou em alguma parte dela?
- Se corre de norte a sul, se de sul a norte, se de poente a nascente, se de nascente a poente?
- Se cria peixes, e de que espécie são os que traz em maior abundância?
- Se há nele pescarias, e em que tempo do ano?
- Se as pescarias são livres, ou de algum senhor particular, em todo o rio, ou em alguma parte dele?
- Se se cultivam as suas margens, e se tem muito arvoredo de fruto ou silvestre?
- Se tem alguma virtude particular as suas águas?
- Se conserva sempre o mesmo nome, ou o começa a ter diferente em algumas partes, e como se chamam estas, ou se há memória de que em outro tempo tivesse outro nome?
- Se morre no mar, ou em outro rio, e como se chama este, e o sítio em que entra nele?
- Se tem alguma cachoeira, represa, levada, ou açudes que lhe embaracem o ser navegável?
- Se tem pontes de cantaria, ou de pau, quantas e em que sítio?
- Se tem moinho, lagares de azeite, pisões, noras ou outro algum engenho?
- Se tem algum tempo, ou no presente, se tirou ouro das suas areias?
- Se os povos usam livremente das suas águas para a cultura dos campos, ou com alguma pensão?
- Quantas léguas tem o rio, e as povoações por onde passa, desde o seu nascimento até onde acaba?
- E qualquer outra coisa notável que não vá neste interrogatório.
Arquivos
- Memórias Paroquiais de 1758, directoria com a digitalização, na Torre do Tombo
- Índice Geral das Memórias Paroquiais, sobre os volumes existentes na Torre do Tombo
Deste arquivo, saliento as seguintes paróquias da Beira Baixa, que se encontram em:
- Alcaide, Guarda - 8 páginas, 1758. Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 1, nº 75, p. 541 a 548
- Alpedrinha, Castelo Branco - 16 páginas, 1758. Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 3, nº 17, p. 145 a 160
- Sortelha, Castelo Branco - 14 páginas, 1758. Cota actual: Memórias paroquiais, vol. 35, nº 210, p. 1513 a 1526
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